O CEMITÉRIO DOS TAMARINDEIROS
Viana, a pitoresca cidade dos campos do rio Pindaré, aquela que o “bairrismo” denominou poeticamente a “Veneza Maranhense”, é a antiga missão de Nossa Senhora da Conceição Imaculada do Maracu - uma das principais fundações dos grandes missionários, discípulos do extraordinário padre Antônio Vieira. O seu fundador Padre Pedrosa, fora companheiro do “Padre Grande” na famosa expedição apostólica a Ibiapaba.
Lá, ainda, à vista da Matriz, que perdeu infelizmente com as modernizações o melhor dos seus encantos de ermida rústica, encontramos hoje apenas restos esparsos de uma outra relíquia dos padres da Companhia: o Engenho de São Bonifácio. Esta página evoca tão impressionante paragem.
No começo do século passado, ainda existia, à margem do “Igarapé do Engenho”, a ermida pequena, mas relativamente rica, de “São Bonifácio do Maracu”.
Pouco a pouco, porém, os próprios moradores arrancaram as pedras aos veneráveis edifícios, para suas casas e engenhocas; a própria capela abandonada serviu de repasto à lithophagía interesseira, inevitável num país onde governos e homens de estudo não embargam a ação depredatória dos aproveitadores de ruínas.
Ao mesmo tempo, iam insurgindo dos escombros da obra memorável dos padres, as lendas mais extravagantes. Como na ilha dos Caranguejos, como em Pimentel, no “Pinaré”, como em tantos outros lugares, ali se disse existir o tesouro dos padres da Companhia, a grande obsessão constante no espírito das gentes rústicas, a ferretoar ambições e a apavorar os quantos entreviram, entre o próprio desejo e o ouro recôndito, a mão potente de forças sobrenaturais.
Superstição ou lembrança vaga de um fato sem provas, aliás, até hoje, o tesouro dos padres encontra ainda guarida na imaginação do pescador que, se lança a tarrafa e esta se prende a um tronco morto ou raiz do fundo do rio, logo crê que é a corrente de ferro, o pesado cofre das riquezas ocultas...
Na sua ingenuidade, o matuto não repara que os padres, se tinham aqui o que esconder não os poriam em cofres de ferro exposto à oxidação, com correntes que se pudessem encontrar pescando nos igarapés. Enterrariam seus bens, quando, a mando do ministro de Dom José, daqui os expulsou Lobato e Souza, no âmago dos matos, em ponto marcado a rumo e distância em roteiros secretos. O marco de pedra, que se diz existir por esses campos, mas que não logrei encontrar, responderia a esta hipótese. Quanto a corrente do poção do Engenho, não a vi, e filhos do lugar dizem que nunca existiu, ou que já não existe, o que dá no mesmo. Uma espécie de barril (disse-me o dono do rancho hoje existente no lugar da antiga capela) foi tirado do igarapé por uns desconhecidos, à noite...
Lendas de arrepiar, enfim, são contadas sobre o falado sumiço dos dobrões e das alfaias da antiga Missão; assim se refere à de um índio, que os Jesuítas cegaram, depois de servir de portador de pesado baú a esconderijo subterrâneo, afim de que nunca pudesse identificar o complexos temeroso por onde se ia ao seio do tesouro absconso, e esse índio, velho decrépito, ainda foi conhecido, falando do tesouro entregue à guarda indiferente da terra e animando, com as vagas sugestões da memória causada e da visão perdida, a quantos se mostravam desejosos de desvendar o velocino inumado pelo egoísmo e vingança dos padres.
Para a população oriunda dos antigos catecúmenos, o tempo dos padres da companhia é uma irá lendária, de onde vem, às vezes, de envolta com o retinir estonteador das dobras e dos luzentes ostensórios áureos guardados nos arcos sob os enormes, ferros cadeados, o ruído apavorante da palmatória sacerdotal de que no passado século algumas velhas excatecúmenas ainda tinham reminiscências, naturalmente pouco saudosas...
Junto ao estreito “Igarapé”, está um corpo de mato, uma grande “ilha”, a velha sesmaria da Palmela, vasto capoeirão, terra lavrada pelo braço do catecúmeno.
Mas onde era esse engenho de São Bonifácio? Onde edificaram os padres Jesuítas a capela do orago guerreiro, trazido de Roma, com Santo Alexandre do Pará, com relíquia dada pelo Papa, e cuja imagem era provavelmente a mesma que ainda se venera, por complicada mudança, na próxima vila de Penalva? Era nesse capoeirão mesmo, no chamado hoje “cemitério dos tamarindeiros”. Por estreito caminho atinge-se pequena clareira, onde se erguem três grandes bojudos tamarindeiros, troncos de quatro a cinco metros de circuito de córtice espesso a caracterizar-lhes a senectude, veneráveis na sua vetustez seivosa ainda, se bem que três vezes secular. Alinhados, no meio do capoeirão bravio e garranchento, são as últimas testemunhas do seu tempo.Em torno, mil vestígios, embora modestos e banais, grosseiros pedaços de potes, tijolos, telhas, atestam à existência, de que nada mais restam da grande colmeia de trabalho da Theópolis maranhense, o mesmo eito e moenda que um dos cronistas da Ordem denominou o principal nervo da Companhia em todo o Maranhão.
Ao silencio obscuro das tardes no mato, entre o piar e esvoaçar baixo de aves de agoiro, como nos comove aquele triste lugar, quase deserto em torno do qual apenas se erguem, junto ao rio, dois pequenos ranchos de pindoba e se alastram vestígios de uma época tão distante pelo envolver do progresso moderno; quantas reminiscências diante daquelas singelas cruzes de pau, sob as quase, numa aberta de mato, se têm, por força da tradição, enterrado seis gerações; ante esse ossário rústico nenhum mais venerado pelas recordações que encerra o lugar, nenhum mais obscuro pela beleza nua com que a piedade matuta ali depositou os seus finados sem um muro, sem um momento, sem sinal dos jazigos mais que uns cubos de tijolo encimados por cruzes pequenas.
Nunca me empolgou tão fortemente a poesia do passado como ali, sob as vossas ramas desnudas, ó velhos tamarindeiros, ó três patriarcas vegetais, plantados pela mão calosa e enérgica de algum desses sacerdotes, em que a fibra viril da velha teocracia romana, domadora de bárbaros, renascia. Contemporâneos da catequese, talvez, viram-vos surgir virentes, intrusos felizes, que da Índia mirifica vínheis juntar-vos ao esplendor das nossas matas, os primeiros guerreiros brancos descidos das florestas do Carú aos plainos ferazes onde se ergueram Nossa Senhora da Conceição e São Francisco Xavier do Carará como dois alvos, marcos de fé e de progresso sobre as choças de palmáceas e sobre os latifúndios brutos do “Pinaré”.
E fostes crescendo junto ao engenho, onde se esboçava rudemente a vida econômica de uma grey, e fostes enramando à medida que a missão crescia em torno dos presbitérios loyolianos. Passou a “missão”; a “vila” ergueu suas pesadas vivendas senhoreais, enquanto o velho engenho dos Padres se multiplicava através das “ilhas” férteis e das grandes matas, em moendas inúmeras onde a multidão negra e cativa moirejava e sofria para estilar das estirpes sumarentas o doce líquido, que não corria mais grosso do que o sangue e o suor dos lombos da escravaria sofredora.
A capela de São Bonifácio caía, porém aos pedaços, há mais de século; o engenho desapareceu; homens, edifícios, instituições, a tribo, a missão, a Ordem, tudo se foi; só vós, ó árvores, ficastes, eretas, impassíveis, guardando, entre as vossas raízes, o melhor tesouro, o da tradição, das velhas lendas, das memórias dos tempos idos. Descendentes vossos são, decerto, os grandes tamarindeiros irrentes que freqüentemente se encontram ao lado de cada fazenda ou sítio do Maracu oferecendo, onde não existem senão os araribais da margem, uma sombra a quem quer atravesse aquelas terras. Sois vós as árvores ancestrais, as árvores domesticas, confidentes vós dos mortos como os vossos filhos dos vivos, porque os fundadores do lugar vos cercou de um halo sagrado de respeito. Que machado ousará corta-vos, troncos feitos do sangue dos finados? Toda alma religiosa verá em vós uma coisa infinitamente venerável: penhor da fecundez da terra e monumento dos homens, síntese das seivas e das almas, altar vivente do passado.
Vai anoitecer...
Ao passo lento do animal deixo atrás o caminho estreito do “mato do cemitério”; mas, morre, sobre o rosto, volto-me ainda para contemplar, isoladas no meio do capoeirão, as árvores do Cemitério. E que, os netos dos catecúmenos, natos e criados nesses lugares, amamos ainda, como a uns seres amigos e tutelares, os três velhos tamarindeiros...
RAIMUNDO LOPES
LOPES, Raimundo. “O CEMITÉRIO DOS TAMARINDEIROS, Uma relíquia dos Jesuítas”. REVISTA DA SEMANA ANO XXVI Nº 5. Rio de Janeiro, 24 de Janeiro de 1925. Reprodução da Fundação Nezinho Soares, para fins didáticos - 2000. Pesquisa de: Pedro Mendengo Filho.