A Companhia de Jesus no Brasil
Em Portugal a Companhia de Jesus havia sido favorecida desde 1540, durante o reinado de D. João III, e graças a ele puderam os jesuítas estabelecer-se na América portuguesa sem encontrar os impedimentos colocados aos jesuítas espanhóis por Felipe II e pelo Conselho das Índias. Junto com o primeiro governador-geral vieram para o Brasil os primeiros jesuítas: os padres Manuel da Nóbrega, Leonardo Nunes, Antônio Pires, Aspicuela Navarro, Vicente Rodrigues e Diodo Jácome. Anchieta, um rapagão de dezenove anos, veio na leva seguinte.
Nóbrega, que viera à frente dos demais, tornou-se Provincial com a fundação da província jesuítica brasileira, em 1553.
Para os jesuítas tanto tinha importância a “conversão” das almas quanto à utilização econômica daquela mão-de-obra disponível: ao passo que aos colonos não interessava mais que a exploração da força de trabalho indígena, sem que se interpusesse a isso o empecilho da catequização.
As missões geralmente acompanharam as migrações dos indígenas à medida que estes fugiram dos principais centros de colonização, tentando escapar da escravização a que os colonos os submetiam. Dessa forma fixaram-se principalmente no sertão, em regiões que não apresentavam atrativos de exploração imediata, o que não quer dizer que estivessem isentas de investidos, que não formassem elas mesmas um alvo de cobiça dos colonizadores, pela quantidade de índios domesticados que aldeavam. Seus principais redutos localizaram-se no deserto do norte do México, nas orlas da floresta amazônica e no interior da América do Sul. Pela forma com que se organizaram, evoluíram como economias voltadas para a produção de excedentes comercializáveis pelos religiosos.
A ação dos missionários
A atitude dos jesuítas e de outras ordens missionárias foi dúbia em relação à questão indígena. Se de um lado se posicionaram contra a escravização indígena, por outro confinaram os indígenas nos chamados aldeamentos cristãos, onde, através de catequeses, obrigavam esses povos a abandonar seu modo tradicional de vida, suas andanças pela mata, suas lideranças, substituindo suas crenças e cerimônias pelos ritos católicos. Confinados em populosos aldeamentos, os indígenas estavam sujeitos com mais freqüência às doenças trazidas pelos brancos, como foi o caso de repetidas epidemias de varíola. Em 1562, Padre José de Anchieta escreve que 30 mil indígenas morreram em menos de 3 meses em decorrência da doença.
A rigor, apesar da copiosíssima legislação garantidora da liberdade dos índios, se pode afirmar que o único requisito indispensável para que o índio fosse escravizado era ser, um índio livre. Mesmo os já incorporados à vida colonial; como ocorreu com os recolhidos às missões – inúmeros vezes assaltados e acossados. Isso foi o que sucedeu, por exemplo, quando Mem de Sá autorizou uma guerra de vingança para escravizar os índios Caeté por haverem comido o bispo Dom Pero Fernando Sardinha. Os colonos, com base nessa ordem de vingança, caíram sobre as missões jesuíticas e dos doze mil catecúmenos sobraram apenas mil, quando a ordem foi revogada.
Também foi nefasta o papel dos jesuítas, retirando os índios de suas aldeias dispersas para concentrá-los nas reduções, onde, além de servirem aos padres e não a si mesmos e de morrerem nas guerras dos portugueses contra os índios hostis, eram facilmente vitimados pelas pragas de que eles próprios, sem querer, os contaminavam. É evidente que nos dois casos o propósito explícito dos jesuítas não era destruir os índios, mas o resultado de sua política não podia ser mais letal se tivesse sido programada para isso.
A atuação negativa dos jesuítas porém, se funda na própria ambigüidade de sua dupla lealdade frente aos índios e à Coroa, mais predispostos, porém, a servir a esta Coroa contra índios aguerridos que a defendê-los eficazmente diante dela.
Isso sobretudo no primeiro século, quando sua função principal foi minar as lealdades étnicas dos índios, apelando fortemente para o seu espírito religioso, a fim de fazer com que se desgarrassem das tribos e se atrelassem às missões. A eficácia que alcançam nesse papel alienador é tão extraordinário quanto grande a sua responsabilidade na dizimação que dela resultou.
No segundo século, já enriquecidos de seu triste papel e também representados por figuras mais capazes de indignação moral, como Padre Antônio Vieira, os jesuítas assumiram grandes riscos no resguardo e na defesa dos índios. Foram, por isso, expulsos, primeiro, de São Paulo e, depois, do Estado do Maranhão e Grão-Pará pelos colonos. Afinal, a própria Coroa, na pessoa do marquês de Pombal, decide acabar com aquela experiência socialista precoce, expulsando-os do Brasil. Então, ocorre o mais triste. Os padres entregaram obedientemente as missões aos colonos ricos, contemplados com a propriedade das terras e dos índios pela gente de Pombal, e são presos e recolhidos à Europa, para amargar por década o triste papel de sujiga-dores que tinham representado.
O Patrimônio jesuítico
O vulto do patrimônio jesuítico, ao tempo do seu confisco (1760), era enormíssimo. Estendia-se de norte a sul do país, na forma de missões e concessões territoriais concedidas pela Coroa, onde instalavam suas cinqüenta missões de catequese, cuja base material eram engenhos de açúcar (dezessete), dezenas de criatórios de gado, com rebanho avaliado em quinze mil reses, além de engenhos, serrarias e muitos outros bens.
A Companhia seria também a maior proprietária urbana, pelo número de casa nas cidades que abrigavam os colégios, os seminários, os hospitais, os noviciados, os retiros, regidos por seiscentos e quarenta nove padres e irmãos leigos. Só na Bahia, eles possuíam cento e oitenta seis casas, no Rio de Janeiro setenta e em São Paulo lhes restava ainda cerca de seis, e muitas mais no Maranhão, Recife, em Belém e por toda a parte, das quais fluíam altas rendas de aluguel.
A cobiça que provocou tamanha riqueza era, pelo menos, proporcional a ela, fazendo crescer a cada dia os que exigiam sua desapropriação, com esperança de apropriar-se, eles próprios, de tantos bens. A necessidade dessa desapropriação era defendida peal burocracia, revoltada contra o privilégio fiscal de não pagar impostos nem dízimos. O sonho dos burocratas e dos colonos acabou por alcançar-se e alguns deles se locupletaram como “contemplados” com os bens dos padres e dos próprios índios, declarados livres, mas, de fato, submetidos ao cativeiro, tão rígido como a escravidão dos negros.
Apesar de não ter sido a primeira ordem a aqui se instalar (aos franciscanos e mercedários coube também no Brasil essa precedência), à Companhia de Jesus tornou-se a mais importante e a que maior influência teve na vida colonial brasileira.
* A Companhia de Jesus no Brasil in Brasil História / Antônio Mendes Jr., Luís Roncari, Ricardo Maranhão. – São Paulo: Digitalmídia Editora Ltda, 1995.
Brasil Indígena: 500 anos de resistência / Benedito Prezia, Eduardo Hoomaert. – São Paulo: FTD, 2000.
O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil / Darcy Ribeiro. – São Paulo: Companhia das letras, 1995.
Festas e Tradições Populares do Brasil / Melo Morais Filho. – Rio de Janeiro: F. Briguiet & Cia., Editores, 1946.